De perfeito a insuportável em questão de horas
Ontem ela era a pessoa mais incrível que você já conheceu. Hoje, depois de um silêncio de algumas horas, algo mudou. A mesma pessoa que parecia perfeita agora parece distante, indiferente, ou pior: parece estar se afastando.
E a dor que isso provoca não é proporcional ao que aconteceu.
Quem tem transtorno de personalidade borderline conhece esse ciclo intimamente. E carrega junto o peso de não entender por que os relacionamentos parecem sempre terminar da mesma forma.
Por que os relacionamentos são tão intensos no TPB
O transtorno de personalidade borderline se caracteriza, entre outras coisas, por instabilidade intensa nas relações interpessoais. Segundo Barlow e Durand, esse padrão envolve alternância entre extremos de idealização e desvalorização, que é o que a psicologia clínica chama de splitting.
O splitting não é uma escolha. É um padrão de funcionamento cognitivo e emocional em que a pessoa tem dificuldade real de integrar aspectos positivos e negativos de outra pessoa ao mesmo tempo. O resultado é uma visão em preto e branco dos vínculos: ou a pessoa é completamente boa, ou é completamente ruim. Não existe zona cinza.
No momento de idealização, o outro é perfeito, a relação é única, a conexão é avassaladora. No momento de desvalorização, tudo muda. Os mesmos comportamentos que antes pareciam adoráveis agora parecem insuportáveis. E a transição entre esses dois estados pode acontecer em horas.
O medo de abandono no transtorno borderline
No centro do padrão relacional do TPB está o medo de abandono. Não o medo comum de perder alguém. Um medo visceral, antecipado, que dispara mesmo quando não há evidência real de que o abandono vai acontecer.
Uma mensagem não respondida pode ser suficiente. Uma mudança de tom na voz. Um plano cancelado. Sinais que a maioria das pessoas interpretaria como situações cotidianas se tornam evidências de que o outro está se afastando, de que vai embora, de que era previsível.
Waltman e colaboradores descrevem como esse sistema de alerta hipersensível, alimentado pela desregulação emocional que é o núcleo do TPB, gera reações que parecem desproporcionais do lado de fora, mas que fazem sentido completo dentro da experiência da pessoa. O sistema emocional está respondendo a uma ameaça que, para ele, é tão real quanto qualquer outra.
O ciclo relacional que se repete no TPB
A combinação entre medo de abandono intenso, splitting e desregulação emocional cria um ciclo relacional que tende a se repetir, independente de quem é o parceiro.
Começa com a aproximação intensa. A pessoa com TPB frequentemente estabelece vínculos de forma muito rápida, compartilhando detalhes íntimos logo no início, buscando proximidade intensa, idealizando o outro. Segundo Barlow e Durand, é comum que essa intensidade inicial seja confundida com profundidade emocional, e pode ser muito atraente para quem está do outro lado.
Com o tempo, qualquer sinal de distanciamento, real ou percebido, ativa o medo de abandono. O sistema emocional entra em alerta máximo. Comportamentos que buscam reassegurar o vínculo, como cobranças intensas ou reações de raiva, podem afastar exatamente quem a pessoa tem medo de perder.
Quando o afastamento acontece, a desvalorização frequentemente se instala. A mesma pessoa que foi idealizada passa a ser vista com raiva, decepção ou desprezo. E o ciclo se fecha, preparando terreno para se repetir na próxima relação.
O que acontece dentro de quem está vivendo isso
Uma das coisas mais importantes para compreender sobre o TPB e os relacionamentos é que esse padrão não é manipulação. Não é estratégia. É sofrimento genuíno.
Linehan descreve como a experiência emocional no TPB é avassaladora em intensidade, demora mais para se resolver e é muito mais difícil de modular. A pessoa que oscila entre idealização e desvalorização não está tentando controlar o outro. Está tentando, de um jeito disfuncional, lidar com uma dor emocional que se sente insuportável.
Os sentimentos crônicos de vazio, que são um dos critérios diagnósticos do transtorno, também alimentam a busca por relações intensas. O vínculo, quando está no polo da idealização, preenche algo que normalmente não é preenchido. Quando desaparece ou ameaça desaparecer, o vazio retorna com força.
Como a DBT trata os padrões relacionais do TPB
A DBT, desenvolvida por Marsha Linehan especificamente para o TPB, trabalha diretamente com os padrões relacionais disfuncionais. O módulo de efetividade interpessoal ensina habilidades concretas para navegar nos relacionamentos de forma mais funcional: como pedir o que precisa, como dizer não, como manter o respeito próprio em situações de conflito e como identificar quando um relacionamento está se tornando destrutivo.
McKay, Wood e Brantley descrevem como os velhos hábitos interpessoais formados na infância, sejam agressivos ou passivos, continuam moldando os relacionamentos na vida adulta até que sejam identificados e trabalhados ativamente. Reconhecer esses padrões é o primeiro passo para mudar a forma como a pessoa se relaciona.
O tratamento não elimina a intensidade emocional. Mas desenvolve habilidades para que essa intensidade não destrua os vínculos que a pessoa mais quer preservar.
Para quem está do outro lado do relacionamento com alguém com TPB
Se você está em um relacionamento com alguém com TPB, entender o que está acontecendo não significa aceitar comportamentos que te machucam. Significa sair da narrativa de manipulação ou drama e reconhecer que a pessoa está sofrendo de uma forma que ela mesma não consegue controlar sozinha.
O tratamento existe. E faz diferença.
Se você quer entender mais sobre o TPB ou sobre como a psicoterapia pode ajudar, atendo de forma presencial em Linhares/ES e online para todo o Brasil.
Referências
- Barlow, D. H. & Durand, V. M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Cengage Learning.
- Linehan, M. M. Treinamento de Habilidades em DBT, 2ª ed. Artmed, 2018.
- McKay, M., Wood, J. C. & Brantley, J. Terapia Comportamental Dialética: Livro de Atividades. Artmed.
- Waltman, S. H. et al. Questionamento Socrático para Terapeutas. Artmed, 2023.
Indiara de Lima, psicóloga CRP 16/11211.