Não é frescura. Não é falta de controle. É um transtorno.
Você conhece alguém que em uma semana está cheio de energia, com mil projetos, dormindo pouco e se sentindo invencível, e na semana seguinte mal consegue sair da cama?
Esse não é um padrão de personalidade difícil. Pode ser transtorno bipolar.
E entender o que está acontecendo é o primeiro passo para lidar com ele de forma eficaz.
O que é o transtorno bipolar
O transtorno bipolar é uma condição de saúde mental caracterizada por oscilações intensas de humor que vão muito além do que qualquer pessoa experimenta no dia a dia. Essas oscilações afetam o pensamento, o comportamento, a energia e a capacidade de funcionar no trabalho, nos relacionamentos e na vida cotidiana.
Segundo Barlow e Durand, o transtorno bipolar não é simplesmente ter dias bons e dias ruins. É a alternância entre dois estados clínicos distintos: a mania ou hipomania, que é o polo alto, e a depressão, que é o polo baixo. Cada um desses estados tem características específicas, duração definida e impacto real sobre a vida da pessoa.
Os tipos de transtorno bipolar
O CID-11 e o DSM-5 TR reconhecem diferentes formas do transtorno, com apresentações clínicas distintas.
O transtorno bipolar tipo I é caracterizado pela presença de pelo menos um episódio maníaco completo. Os episódios depressivos podem ou não estar presentes, mas a mania define esse tipo. É a forma mais grave e com maior risco de hospitalização.
O transtorno bipolar tipo II é caracterizado por episódios hipomaníacos e episódios depressivos maiores, sem mania plena. A hipomania é menos intensa do que a mania e não causa prejuízo social grave, o que frequentemente leva ao subdiagnóstico. Muitas pessoas com TB tipo II chegam ao tratamento identificando apenas a depressão, sem reconhecer os episódios hipomaníacos.
A ciclotimia é uma forma mais leve e crônica, com flutuações de humor persistentes por pelo menos dois anos, sem atingir os critérios completos de mania ou depressão.
Como é a mania: mais do que euforia
A mania é frequentemente mal compreendida. Ela não é apenas estar animado ou produtivo. É um estado de ativação extrema que compromete o julgamento e pode gerar consequências sérias.
Dalgalarrondo descreve os sintomas centrais de um episódio maníaco: humor elevado ou irritável, diminuição acentuada da necessidade de sono sem sentir cansaço, autoestima inflada ou grandiosidade, pensamento acelerado com fuga de ideias, fala rápida e difícil de interromper, distractibilidade intensa e aumento de atividades orientadas a objetivos.
O comportamento de risco é uma das características mais impactantes da mania: gastos financeiros impulsivos, decisões precipitadas, desinibição sexual e projetos grandiosos iniciados sem planejamento real. A pessoa em mania frequentemente não percebe que algo está errado. Para ela, está tudo funcionando melhor do que nunca.
Como é a depressão bipolar
O polo depressivo do transtorno bipolar tem as mesmas características de um episódio depressivo maior: humor deprimido, anedonia, fadiga intensa, alterações de sono e apetite, dificuldade de concentração, sentimentos de culpa e inutilidade, e em casos mais graves, pensamentos de morte ou suicídio.
Uma diferença clínica importante: a depressão bipolar tende a ter maior presença de hipersonia, que é o sono excessivo, e hiperfagia, que é o aumento do apetite, em comparação com a depressão unipolar. Segundo Barlow e Durand, o risco de suicídio no transtorno bipolar é significativo e precisa ser avaliado em qualquer atendimento clínico.
O que acontece no cérebro
Quevedo e Izquierdo descrevem o transtorno bipolar como uma das condições psiquiátricas com maior base neurobiológica documentada. A herdabilidade é de aproximadamente 80%, uma das mais altas entre os transtornos mentais.
Do ponto de vista neurobiológico, há disfunção nas vias da proteína quinase C e da GSK-3β, além de disfunção mitocondrial e estresse oxidativo. Estudos de neuroimagem identificam redução de volume no hipocampo e alterações no córtex pré-frontal dorsolateral.
Um dado clinicamente relevante: os genes relacionados ao ritmo circadiano, como CLOCK e BMAL1, têm variantes associadas ao transtorno bipolar. Isso explica por que distúrbios do sono são tanto um pródromo quanto um gatilho de novos episódios. A regularidade do sono é um dos pilares do manejo clínico.
Fatores que precipitam novos episódios
Barlow e Durand identificam os principais fatores de risco para recaída no transtorno bipolar: interrupção do sono, eventos estressantes, uso de substâncias e má adesão ao tratamento.
Esse último ponto merece atenção especial. Um dos maiores desafios clínicos no transtorno bipolar é que muitas pessoas interrompem o tratamento durante a mania, quando se sentem bem e produtivas, sem reconhecer que aquele estado é parte do transtorno. A psicoeducação, que é o processo de ensinar o paciente e seus familiares sobre o funcionamento da doença, é uma intervenção com evidência sólida para reduzir recaídas.
Como o tratamento funciona
O tratamento do transtorno bipolar é multimodal, combinando acompanhamento psiquiátrico e psicoterapia.
A psicoterapia, especialmente a TCC adaptada para o transtorno bipolar, trabalha o reconhecimento precoce de sinais de alerta para novos episódios, o desenvolvimento de estratégias de regulação do sono e da rotina, a adesão ao tratamento e o manejo do impacto emocional do diagnóstico.
Segundo Barlow e Durand, a psicoeducação é um componente essencial do tratamento, tanto individual quanto em grupo. Quando o paciente compreende o funcionamento do transtorno, reconhece seus padrões pessoais e sabe o que fazer diante dos primeiros sinais de um novo episódio, o prognóstico melhora significativamente.
Viver bem com transtorno bipolar é possível
O transtorno bipolar é crônico, mas tratável. Com acompanhamento adequado, a maioria das pessoas consegue estabilizar o humor, reduzir a frequência e a intensidade dos episódios e manter uma vida funcional e satisfatória.
O diagnóstico não define quem a pessoa é. Ele explica parte do que ela vive, e abre a porta para um cuidado mais adequado.
Se você ou alguém próximo está passando por oscilações intensas de humor e quer entender melhor o que está acontecendo, atendo de forma presencial em Linhares/ES e online para todo o Brasil.
Referências
- Barlow, D. H. & Durand, V. M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Cengage Learning.
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, 3ª ed. Artmed, 2019.
- Quevedo, J. & Izquierdo, I. Neurobiologia dos Transtornos Psiquiátricos. Artmed, 2020.
- Avanços em Psicopatologia, Avaliação e Diagnóstico: CID-11. Artmed.
Indiara de Lima, psicóloga CRP 16/11211.